segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

A Padroeira




Ainda menina conheci todas as festas de largo de Salvador. Meus pais não eram festeiros, mas minha mãe adorava um movimento. Até a Segunda-feira Gorda da Ribeira eu conheci, embora tenha sido logo limada porque sendo somente profana, sempre acabava em briga. Mas a Festa da Conceição da Praia ia com minha mãe e minha tia Zélia, mesmo sem meu pai. Ia cedo, prá missa, e depois rodava por entre as frutas, centenas delas, dispostas em pirâmides no chão. Por causa das frutas a festa tinha um cheiro diferente... Lembro as barracas com aqueles tamboretes pintados com figuras geométricas que quando empihadas formavam um colorido mosaico. Que burrice do infeliz que acabou com o "layout" das barracas, transformando todas nestes horríveis tetos de vinil, sem criatividade e sem beleza popular.
Havia um frisson de minha mãe e minha tia em esperar a missa acabar para chegar perto do andor da Santa e pegar um raminho de angélica e levar para abençoar a casa. Não eram as únicas a ter a idéia, de modo que era preciso enfrentar um leve empurra-empurra na Igreja, para se chegar quase no altar, onde a imagem de Nossa Senhora, arrodeada de angélicas e palmas de Sta Rita, aguardava a hora de sair para a procissão pelo Comércio. E eu tinha o maior medo da Conceição por causa do cabelo de verdade, preto como a noite e na altura dos ombros. Embora achasse aquele manto azul marinho lindo. E era só pegar as florzinhas de angélica e sair? Não, tinha de tentar abençoá-las com água benta. Um calor, um mundaréu de gente esprimida. Lá fora aquele dia azul maravilhoso, a gente doido para parar nas barracas de jogos, atirar as argolas azuis, vermelhas e brancas para tentar envolver os maços de cigarro e levar um para meu pai como prêmio. Mas D. Bertha não tinha paciência para isso, nem gostava de jogar dinheiro fora. Será que podia comprar um catavento? E aquelas bolas coloridas gigantes? Podia dar uma volta na roda gigante, sentar um pouquinho no cavalinho do carrossel? Tomar um guaraná naquela barraca com um sambão bem gostoso? Nada, podia comprar uns umbús, uns cajús, uns jambos, umas siriguelas e levar prá casa prá lavar bem lavado. Na festa, só uma fatia de melancia bem vermelha e voltar logo prá casa porque depois da missa, era só cachaça!


A foto em preto e branco tem autor conhecido: o maravilhoso Pierre Fatumbi Verger a tirou na Festa da Conceição em 1946.

Um comentário:

maria guimarães sampaio disse...

Fernandinha,
pra não dizer que não fomos juntas às festas de largo... hoje fomos em nossas saudades. Valeu!
Beijos de Maria