sábado, 13 de dezembro de 2008

Minha Dinda

Ontem, 12 de dezembro foi aniversário de minha madrinha. De todos os meus 5 irmãos, acho que fui a única em casa a ter uma Dinda. Meu irmão mais velho, Ed, foi batizado por Tia Zélia, irmã de minha mãe. Luiz por Tia Alice, queridíssima, que Deus a tenha ao seu lado. Deraldo tinha por madrinha a mulher de seu Padrinho, Dr. Bahiana, médico muito conhecido da Bahia Antiga, grande amigo de meu pai, mas mal a conhecera; Ney tem por madrinha a mulher de seu Padrinho, outro grande amigo de meu pai, chamado Tio Ribeiro, mas sem nenhum parentesco conosco, visitávamo-os quando ele ainda era vivo, sem maiores intimidades. Dina teve por madrinha nossa avó paterna, Vovó Lulu, falecida em 1979 aos 95 anos. Por causa da relação de parentesco as madrinhas não assumiam seu papel específico, sendo prioritariamente tias e avó guardadas igualmente no coração de todos.
Mas eu fui entregue a uma grande amiga de infância de minha mãe, Aydil. Ser minha madrinha era o grande papel dela junto a mim e a meus irmãos. Desde minha tenra infância o dia 12/12 era por mim aguardado com muita ansiedade: minha mãe me preparava para passar o dia na casa dela, até hoje um sobrado na Ladeira do Prata, atrás do Convento do Desterro. Tudo começava dias antes, quando minha mãe costurava duas roupas novas para mim: uma para passar a manhã e a tarde e outra para vestir à noite, quando a família ia me buscar e comer um delicioso carurú.
Minha Dinda tinha um filho de minha idade, Marquinhos, e outro mais novo uns três anos, Luizinho. Bricávamos o dia todo e essa era uma grande novidade para mim, passar o dia brincando com dois meninos - e hoje vejo o quanto minha mãe confiava em minha Dinda, já que, naquela época, isso era absolutamente incomum. Aliás essa experiência do dia 12 era totalmente inusitada: não passava dia na casa de senhor ninguém até meus 16 anos. Só lá.
Lembro que na véspera já não dormia direito por conta da expectativa do passeio e de estrear minhas roupinhas novas - conjuntinhos de short e blusa e macaquinhos coloridos. Eu me sentia totalmente em casa: conhecia toda a família de minha Dinda e Dindo, conversava bastante como ainda hoje, era moleca que só. Aprontava com os meninos, meia menino que era no convívio com os meus irmãos. Meu padrinho era exímio fazedor de jogos de futebol de botão em resina e na minha sacolinha sempre levava o meu Galícia para participar do campeonato que eles promoviam logo à minha chegada, no início da manhã.
A casa de Dinda tinha um sótão cheio de bagunças por onde se chegava por uma escada altíssima e escura que ficava na sala atrás de uma cortina que fora ali posta para escondê-la. Era uma viagem... Além do carurú para a noite, minha Dinda preparava sempre a mesma deliciosa receita de pavê de ameixa, minha sobremesa favorita quando pequena.
Minha Dinda me conquistou estando sempre presente em todas as minhas festividades e comemorações - aniversário, natal, festas da escola, formatura, casamento, nascimento de filhos, batizados dos mesmos, aniversários deles. Pegava um ônibus em Nazaré e saltava em Piatã para me levar um abraço de aniversário, em meio ao calor da tarde de 03 de janeiro, eu já adulta, permanecendo lá somente o tempo de tomar um sorvete ou refrigerante e retornar ao ponto de ônibus para voltar para casa antes do escurecer. Deixava para mim um presentinho singelo, não sem antes repetir várias vezes: "é só uma lembrancinha, tomara que dê" - e era sempre a mesma coisa.
Quando minha mãe morreu há 12 anos, compreendi Tia Aydil como símbolo de um amor muito grande dela para comigo: esperou chegar sua primeira menina (após parir 4 homens) para homenagear a grande amiga. E meu carinho por minha Dinda ficou tão maior que não cabia mais no meu peito!
Ontem fiz um esforço enorme para conseguir uma horinha de almoço com ela. Sozinha em casa (os filhos trabalhando), não me esperava àquela hora (nunca tenho tempo de almoçar fora do trabalho). Sentada na velha cadeira do papai deixada na sala como lembrança de meu Dindo, banho tomado, cheirando a sabonete Bom-Tom, bem vestida, maquiada com ruge e batom, correntinha de ouro com crucifixo no pescoço, brincos grandes sem valor, olhinhos bem miúdos de quem já passou dos 80. Falou da saudade que tinha de minha mãe. E eu ali olhando para ela, emocionada, pensando como a vida era misteriosa nessa magia de se construir um bem querer. Como aprendi a amar alguém nos simples rituais da vida que corre...
Na saída, entrou no quarto, pegou um embrulhinho com papel de natal, escrito na dobra branca do meio do presente um Fernanda todo tremidinho: - "É só uma lembrancinha. Espero que dê..." e ganhei mais uma linda camisola de minha Dinda.

3 comentários:

maria guimarães sampaio disse...

Fernandinha,
você me levou aos prantos. Pela lindeza de seu texto, de sua história. E pelas saudades de Dindinha.
Beijos de Maria

Licia Valente disse...

Nanda,

Que lindo! Você também me emocionou.

Bjs

Edu O. disse...

quero ser um dindo assim para meus meninos que ainda não têm idade de saberem o que é isso. Quero vê-los crescer e cheirar a sabonete quando velho esperando-os com uma lembrancinha também. Tua história me comoveu.