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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Festa de Itapuã

Hoje foi dia da lavagem de Itapuã. Muita gente já esqueceu esta que é a última festa de largo antes do carnaval soteropolitano. Acontece sempre na última quinta-feira antes do carnaval e acompanha a novena em homenagem à Nossa Senhora da Conceição de Itapuã, daquela igrejinha simpática na pracinha central do bairro.

Conheço a festa desde menina, veranista que sempre fui e digo que no passado era uma das minhas favoritas! Ao longo dos anos fui me distanciando, mais ou menos quando chegaram os trios elétricos e transformaram a pracinha num campo minado que chegava à meia noite com inúmeras vítimas contabilizadas. Há uns 15 anos inventaram do cortejo sair daqui da minha porta, em Piatã, e a festa voltou a fazer parte da minha vida pois ficávamos praticamente impossibilitados de sair de casa, pois para retornar só se fosse de madrugada quando o infernal engarrafamento tinha fim.

De manhã, uma delícia: baianas, carroças, cavalos, blocos de nativos e veranistas fantasiados ao som de bandinhas chupa-catarro (será que tem hífen?), crianças, famílias, bicicletas, amigos, sol, cervejinha... "vida enfeitada" como diria aquela musica de carnaval antiga. À tarde, o horror: só no ano passado contei 16 trios parados em minha porta, um som altíssimo de música da pior qualidade, baixe aí, pegue aqui, desce mainha, sobe neguinha, Carlinhos 1,2,3, som, som,som. Até meia noite impossível fazer qualquer coisa na casa que exijisse concentração, audição, atenção, etc. Depois do advento do arrocha então, melhor nem comentar!

Mas este 2009 a prefeitura proibiu os trios. Ah, os bons tempos voltaram! Acordei com os fogos de artifício anunciando a saída do cortejo e um sonzinho de batucada antiga acompanhando aquele soprinho rachado dos metais entoando o "somos da turma tricolor". Resolvi descer para conferir. Lembrei logo do Rei Momo Gerônimo, " ô cidade louca ". Se eu fosse Maria Sampaio teria levado uma máquina fotográfica (leia-se câmera digital, estou deixando a nostalgia tomar conta demais de mim, né?)e teria registrado uma porção de senhoras bem velhinhas que colocaram cadeiras plásticas na calçada e ali quedaram-se para ver a banda passar. Pescoços com colares coloridos, cabeças branquinhas portando chapeuzinhos de palha com furinhos, olhares de alegria e perninhas balançando no ritmo das marchinhas. Espiavam o quê mesmo? Nenhuma grande atração, nenhum cantor ou cantora de axé estourado nas rádios. Foram para lá enfeitar a vida, sair um pouco da rotina e ver gente!

Quando meus filhos eram pequenos quis mostrar para eles um pouco da festa e arrisquei levá-los até a rua para ver os trios. Ficamos na calçada e Rafa tomou nos peitos a reverberação da percussão, sentindo logo aquele mal estar decorrente do som das tuítas amplificadas no corpo.

- Mãe, quero subir. Samba me deixa enjoado.

Tentei explicar que não era o "samba", que não tinha nada a ver com o estilo musical, em vão. Voltamos para casa. A zoada insuportável tomava conta de todos os cantos, mas resolvi deitar na rede e ler uma revista. Não demorou muito e Rafa me chama: - Mãe, ainda tô enjoado. Bote o CD de Cássia Eller para ver se eu melhoro...


segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

A Padroeira




Ainda menina conheci todas as festas de largo de Salvador. Meus pais não eram festeiros, mas minha mãe adorava um movimento. Até a Segunda-feira Gorda da Ribeira eu conheci, embora tenha sido logo limada porque sendo somente profana, sempre acabava em briga. Mas a Festa da Conceição da Praia ia com minha mãe e minha tia Zélia, mesmo sem meu pai. Ia cedo, prá missa, e depois rodava por entre as frutas, centenas delas, dispostas em pirâmides no chão. Por causa das frutas a festa tinha um cheiro diferente... Lembro as barracas com aqueles tamboretes pintados com figuras geométricas que quando empihadas formavam um colorido mosaico. Que burrice do infeliz que acabou com o "layout" das barracas, transformando todas nestes horríveis tetos de vinil, sem criatividade e sem beleza popular.
Havia um frisson de minha mãe e minha tia em esperar a missa acabar para chegar perto do andor da Santa e pegar um raminho de angélica e levar para abençoar a casa. Não eram as únicas a ter a idéia, de modo que era preciso enfrentar um leve empurra-empurra na Igreja, para se chegar quase no altar, onde a imagem de Nossa Senhora, arrodeada de angélicas e palmas de Sta Rita, aguardava a hora de sair para a procissão pelo Comércio. E eu tinha o maior medo da Conceição por causa do cabelo de verdade, preto como a noite e na altura dos ombros. Embora achasse aquele manto azul marinho lindo. E era só pegar as florzinhas de angélica e sair? Não, tinha de tentar abençoá-las com água benta. Um calor, um mundaréu de gente esprimida. Lá fora aquele dia azul maravilhoso, a gente doido para parar nas barracas de jogos, atirar as argolas azuis, vermelhas e brancas para tentar envolver os maços de cigarro e levar um para meu pai como prêmio. Mas D. Bertha não tinha paciência para isso, nem gostava de jogar dinheiro fora. Será que podia comprar um catavento? E aquelas bolas coloridas gigantes? Podia dar uma volta na roda gigante, sentar um pouquinho no cavalinho do carrossel? Tomar um guaraná naquela barraca com um sambão bem gostoso? Nada, podia comprar uns umbús, uns cajús, uns jambos, umas siriguelas e levar prá casa prá lavar bem lavado. Na festa, só uma fatia de melancia bem vermelha e voltar logo prá casa porque depois da missa, era só cachaça!


A foto em preto e branco tem autor conhecido: o maravilhoso Pierre Fatumbi Verger a tirou na Festa da Conceição em 1946.